Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Olhar e ver

Vem aí o fim-de-semana. É tempo de parar para olhar as coisas belas e visíveis.

Alberto Caeiro, "Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta"

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.

Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Fonte
                     
               

quarta-feira, 28 de março de 2012

Dias de Primavera

Matsuo Basho

Temple bells die out.
The fragrant blossoms remain.
A perfect evening!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Um filme com legendas

Não sei pronunciar o nome da actriz (Jeong-hie Yun), mas esqueci-me completamente que estava perante uma actriz. É que a simpática e determinada protagonista do filme Poetry (Poesia) mostra, com uma absoluta naturalidade, o sabor e a beleza de um alperce ou como a dignidade e a ética humanas tornam irrelevantes considerações sociais ou os pequenos poderes.
É um filme um pouco longo mas em que o tempo ainda falta para preencher os espaços que o realizador, Chang-dong Lee, deixa de mostrar. É ao espectador que cabe, por isso, completá-los e é para isso que serve a interpretação: a dos actores e a dos espectadores que interpretam o que aparece e o que é deixado aparecer no ecrã, nas palavras, nos gestos e nos rostos. E é tão importante, neste filme, ver todos os gestos e ouvir (neste caso, ler) todas as palavras...
Coisas que me ficaram: 
  • a crítica explícita à desvalorização da mulher que nunca transparece e que, afinal, está tão implicitamente presente (até naquele momento do neto e das jovens com o arco de hula-hoop);
  • os cinco pais que até são impelidos por um sentimento protector, mas em que a sua displicência e condescendência apenas ampliam a forma como os seis rapazes abusaram da rapariga e a forma como a avó é vista pelo inválido;
  • o final (meu Deus, o final) com o jogo mental entre as presenças e ausências de Mija e de Agnes, em que nada e tudo é dito - o cão que agora brinca perante alguém ou o irmão de Agnes que acompanha o autocarro porque já é uma memória e não um momento presente;
  • as palavras do poema de Mija;
  • a poesia que, afinal, nasce de um Belo que não o é, como Mija irá descobrir, um pouco contra a sua vontade e teimosia;
  • o polícia-poeta que toma o lugar do neto no jogo de badminton;
  • a força do que é justo e do respeito pelo Outro que supera, apenas em parte, o sentimento familiar;
  • a preocupação com o banho do neto porque já sabe o destino deste;
  • a forma como a violência extrema está presente, sob a superfície e desde os primeiros momentos embora nunca se veja.
O filme vê-se como um quadro real porque ninguém parece estar a actuar para uma câmara mas a protagonista é simplesmente excepcional: chama-se Jeong-hie Yun e, se lhe quiserem dar um Óscar, é absolutamente merecido embora não tenha grande importância. Jeong-hie Yun não precisa de Óscares para confirmar o brilhantismo do seu trabalho. Basta vê-la em Poetry.
(Nota: o filme tem passado no TVCine. Vê-lo na televisão custa um pouco porque estar a ver um filme em casa e não poder olhar, de vez em quando, para o lado ou atender um telefone é complicado mas, como não falo coreano, não posso ignorar as legendas. Dito isto, continuo a ser contra as dobragens. Não seria possível dobrá-lo para outra língua e manter a subtileza e força calma da voz de Jeong-hie Yun.)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Palavras

Octavio Paz
Destino de Poeta
Palavras? Sim, de ar,
e no ar perdidas.
Deixa-me perder entre palavras,
deixa-me ser o ar nuns lábios,
um sopro vagabundo sem contornos
que o ar desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.

Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra"
Tradução de Luis Pignatelli


Fonte da imagem: Britannica

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cibernéticas e computações

Aos Vindouros, se os Houver...

Vós, que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;

que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;

computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;

que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.

Alexandre O'Neill, in 'Poemas com Endereço'

Citado a partir daqui.


(Só porque a cor azul é linda excepto nos momentos em que o Windows e o meu computador me odeiam e ficam azuis de raiva... Imagem encontrada aqui).

sábado, 5 de novembro de 2011

Para onde vão as palavras dos poetas?

"Where My Books Go", William Butler Yeats

All the words that I utter,
And all the words that I write,
Must spread out their wings untiring,
And never rest in their flight,
Till they come where your sad, sad heart is,
And sing to you in the night,
Beyond where the waters are moving,
Storm-darken’d or starry bright.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen


"Instante"


Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes 
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio 


Edward Hopper, Morning Sun, 1952
Oil on canvas
28 1/8 x 40 1/8 inches
Columbus Museum of Art, Ohio
Fontes: texto e imagem.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A sabedoria do desconhecimento

Fonte da imagem 

"Identidade"

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"


Poema citado a partir daqui.

domingo, 25 de setembro de 2011

A precisão das palavras - António Ramos Rosa

"Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo"

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"

Citado a partir daqui.
Quadro de Giorgio de Chirico, encontrado aqui. 

sábado, 10 de setembro de 2011

Dance, dance, dance

"Sweet Dancer" by W.B. Yeats

THE girl goes dancing there
On the leaf-sown, new-mown, smooth
Grass plot of the garden;
Escaped from bitter youth,
Escaped out of her crowd,
Or out of her black cloud.
Ah, dancer, ah, sweet dancer!

If strange men come from the house
To lead her away, do not say
That she is happy being crazy;
Lead them gently astray;
Let her finish her dance,
Let her finish her dance.
Ah, dancer, ah, sweet dancer!

Mormors Mitsubishi
No Flickr

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A mulher e o espelho

Paul Delvaux, "Femme au Miroir"
Rainer Maria Rilke, "Lady at a Mirror"

As in sleeping-drink spices
softly she loosens in the liquid-clear
mirror her fatigued demeanor;
and she puts her smile deep inside.

And she waits while the liquid
rises from it; then she pours her hair
into the mirror, and, lifting one
wondrous shoulder from the evening gown,

she
drinks quietly from her image. She drinks
what a lover would drink feeling dazed,
searching it, full of mistrust; and she only

beckons to her maid when at the bottom
of her mirror she finds candles, wardrobes,
and the cloudy dregs of a late hour.

Traduzido por Edward Snow


Nenúfares

Claude Monet, Les Nymphéas - Reflets Verts (parte do quadro)

Rainer Maria Rilke, "Water Lily", traduzido por A. Poulin

My whole life is mine, but whoever says so
will deprive me, for it is infinite.
The ripple of water, the shade of the sky
are mine; it is still the same, my life.

No desire opens me: I am full,
I never close myself with refusal -
in the rythm of my daily soul
I do not desire -I  am moved;

by being moved I exert my empire,
making the dreams of night real:
into my body at the bottom of the water
I attract the beyonds of mirrors...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Integridade


Juan Gris
(No aniversário de Fernando Pessoa)

"Para ser grande, sê inteiro: nada"

Para ser grande, sê inteiro: nada
        Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
        No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
       Brilha, porque alta vive
                          
Ricardo Reis (Fonte)

domingo, 2 de maio de 2010

Diálogo Interartes: quando May Swenson encontra Giacometti

"The Tall Figures of Giacometti"

May Swenson

We move by means of our mud bumps.
We bubble as do the dead but more slowly.

The products of excruciating purges
We are squeezed out thin hard and dry.

If we exude a stench it is petrified sainthood.
Our feet are large crude fused together

solid like anvils. Ugly as truth is ugly
we are meant to stand upright a long time


and shudder without motion
under the scintillating pins of light

that dart between our bodies
of pimpled mud and your eyes.


Alberto Giacometti, City Square

Enquanto May Swenson apresenta um "afastamento" nas figuras no poema, ligadas involutariamente entre si, Giacometti mostra o impulso do movimento e um sentido de direccionalidade, ainda que indefinido, das figuras masculinas.

Mas pensando na presente crise europeia, poema e escultura traçam um bom retrato de uma sociedade onde "we are squeezed out thin hard and dry"...