Não sei pronunciar o nome da actriz (Jeong-hie Yun), mas esqueci-me completamente que estava perante uma actriz. É que a simpática e determinada protagonista do filme Poetry (Poesia) mostra, com uma absoluta naturalidade, o sabor e a beleza de um alperce ou como a dignidade e a ética humanas tornam irrelevantes considerações sociais ou os pequenos poderes.
É um filme um pouco longo mas em que o tempo ainda falta para preencher os espaços que o realizador, Chang-dong Lee, deixa de mostrar. É ao espectador que cabe, por isso, completá-los e é para isso que serve a interpretação: a dos actores e a dos espectadores que interpretam o que aparece e o que é deixado aparecer no ecrã, nas palavras, nos gestos e nos rostos. E é tão importante, neste filme, ver todos os gestos e ouvir (neste caso, ler) todas as palavras...
Coisas que me ficaram:
- a crítica explícita à desvalorização da mulher que nunca transparece e que, afinal, está tão implicitamente presente (até naquele momento do neto e das jovens com o arco de hula-hoop);
- os cinco pais que até são impelidos por um sentimento protector, mas em que a sua displicência e condescendência apenas ampliam a forma como os seis rapazes abusaram da rapariga e a forma como a avó é vista pelo inválido;
- o final (meu Deus, o final) com o jogo mental entre as presenças e ausências de Mija e de Agnes, em que nada e tudo é dito - o cão que agora brinca perante alguém ou o irmão de Agnes que acompanha o autocarro porque já é uma memória e não um momento presente;
- as palavras do poema de Mija;
- a poesia que, afinal, nasce de um Belo que não o é, como Mija irá descobrir, um pouco contra a sua vontade e teimosia;
- o polícia-poeta que toma o lugar do neto no jogo de badminton;
- a força do que é justo e do respeito pelo Outro que supera, apenas em parte, o sentimento familiar;
- a preocupação com o banho do neto porque já sabe o destino deste;
- a forma como a violência extrema está presente, sob a superfície e desde os primeiros momentos embora nunca se veja.
O filme vê-se como um quadro real porque ninguém parece estar a actuar para uma câmara mas a protagonista é simplesmente excepcional: chama-se Jeong-hie Yun e, se lhe quiserem dar um Óscar, é absolutamente merecido embora não tenha grande importância. Jeong-hie Yun não precisa de Óscares para confirmar o brilhantismo do seu trabalho. Basta vê-la em Poetry.
(Nota: o filme tem passado no TVCine. Vê-lo na televisão custa um pouco porque estar a ver um filme em casa e não poder olhar, de vez em quando, para o lado ou atender um telefone é complicado mas, como não falo coreano, não posso ignorar as legendas. Dito isto, continuo a ser contra as dobragens. Não seria possível dobrá-lo para outra língua e manter a subtileza e força calma da voz de Jeong-hie Yun.)

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