Morreu Christa Wolf , no passado dia um de Dezembro. Há cerca de duas semanas tinha pensado em reler Kassandra, na belíssima edição da Cotovia. Essa pequena obra-prima perturbou-me para além do que devia ser permitido quando a li, há muitos anos atrás, e continua a perturbar-me agora, anos depois, quando a retomo poucas semanas antes da morte da autora.
Mas é uma narrativa impossível, em que se rema contra um trágico destino mas em que o espaço do mito é de tal forma reinventado e actualizado que se torna, paradoxalmente, plausível.
Christa Wolf pega no mito da jovem Cassandra e retira-lhe o peso do castigo divino, revelando-a antes como alguém que sabe a verdade que não pode ser dita. A filha de Príamo, que o mito descrevia como uma profetisa em que ninguém acredita, surge antes como uma jovem envolta nas questões políticas da Guerra de Tróia, censurada por saber a verdade e pelo seu inconformismo.
Seguir a corrente de consciência de Cassandra, nos últimos dias da sua vida, é saber que se caminha para um abismo e que esse abismo é criado por nós.
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