Há quem associe às revoltas no mundo árabe e lembre a importância das redes sociais. As redes sociais têm importância e o descontentamento social também. Mas não passa necessariamente por aí. Até porque no mundo árabe as pilhagens foram quase irrelevantes no meio da revolta geral.
Há quem lembre a situação em França aqui há uns anos. Mas em França as comunidades dos bairros sociais são muito mais segregadas, têm o passado colonial mais presente e a questão religiosa não é negligenciável.
Eu lembro-me mais dos confrontos em Los Angeles depois da agressão policial a Rodney King.
Para quem se lembra desses confrontos, muita da violência partiu da comunidade afro-americana e muitas das lojas assaltadas pertenciam à comunidade coreana. Os argumentos de então mencionavam a rivalidade entre as comunidades - uma, herdeira da escravatura e das Jim Crow Laws e que ainda não tinha conseguido sair de um patamar de pobreza inaceitável; a outra, uma comunidade recém-chegada aos Estados Unidos e que, através de um investimento sólido em relações familiares e de comunidade, na educação e no comércio, tinha conseguido atingir algum sucesso económico em pouco tempo.
Quem conhece Londres sabe que muitas das lojas de electrodomésticos e supermercados pertencem a pessoas originárias da Índia e Paquistão. Se bem que não se possa falar em comunidades absolutamente integradas (a falta de integração até foi comentada por alturas dos ataques terroristas cometidos por elementos da comunidade paquistanesa), na área comercial há algum sucesso visível por parte destas comunidades, sobretudo em certas partes de Londres. Pelos vídeos de alguns lojistas vítimas de pilhagens, é possível ver que há muitos membros dessas comunidades entre os que foram assaltados.
Quanto aos assaltantes, vêem-se vários elementos da comunidade africana ou do caribe, mas não só. O que é mais evidente é que são, acima de tudo, jovens. Como os hooligans de há algum tempo atrás, esses certamente nados e criados em Inglaterra.
Estes momentos de excitação e revolta urbana vão e vêm. Não têm uma causa específica. Reflectem, sem dúvida, mal-estar social mas não a fome. Quem tem fome não está não sei quanto tempo a tentar roubar um LCD. Estão limitados no seu poder de compra numa sociedade que privilegia o consumo? Sem dúvida, mas não andamos para aí a criticar o consumismo? Então como é que se defendem estas pilhagens? Quem pilha assim tem direito a passar uns tempinhos atrás das grades. Como todos os outros rebeldes sem causa. Também me irrita aquela gente que aparece logo a criticar o multiculturalismo e os emigrantes. Este vídeo em baixo pode não ter a melhor imagem mas parece-me que a criatura que rouba o rapaz ferido não é filho de emigrantes. Pode ser engano meu mas parece londrino de gema de há várias gerações.
Estes momentos de excitação e revolta urbana vão e vêm. Não têm uma causa específica. Reflectem, sem dúvida, mal-estar social mas não a fome. Quem tem fome não está não sei quanto tempo a tentar roubar um LCD. Estão limitados no seu poder de compra numa sociedade que privilegia o consumo? Sem dúvida, mas não andamos para aí a criticar o consumismo? Então como é que se defendem estas pilhagens? Quem pilha assim tem direito a passar uns tempinhos atrás das grades. Como todos os outros rebeldes sem causa. Também me irrita aquela gente que aparece logo a criticar o multiculturalismo e os emigrantes. Este vídeo em baixo pode não ter a melhor imagem mas parece-me que a criatura que rouba o rapaz ferido não é filho de emigrantes. Pode ser engano meu mas parece londrino de gema de há várias gerações.
Não há sociedades perfeitas e em tempos de crise é mais fácil serem detonados focos de violência, mas isto não tem nada a ver com os conflitos causados pelo fecho das minas ou a poll tax no tempo da senhora Thatcher, nem tem nada a ver com os conflitos no mundo árabe ou as manifestações na Grécia. Aqui não se luta por um emprego, por dignidade, contra o racismo, contra uma guerra, um regime ou contra o custo de vida que não permite pagar livros escolares. Aqui luta-se por um plasma ou um smartphone e porque apetece e não se tem mais nada para fazer. E para essa batalha, tenho muita pena, mas não dou. E também não percebo por que razão há tanta gente surpreendida. Se calhar falta de memória - um dos grandes problemas da nossa sociedade de fast news, fast experiences e fast fading memories. Daqui a uns dias ou semanas, estes jovens estarão entretidos com outra coisa qualquer e estes tumultos farão parte dos arquivos do YouTube. Depois, quando eclodirem novos actos de violência similares noutro ponto qualquer do globo vai tudo ficar muito surpreendido outra vez e os jornalistas irão juntar ao seu currículo "enviado especial a". Como se as histórias não se repetissem e como se este tipo de violência não fizesse parte, quase ritual, da história da nossa humanidade.
Entretanto, achei este texto muito interessante sobre as comunidades que não se tocam: James Meek in Broadway Market. Não sei se estará absolutamente correcto. Se calhar não frequentam os mesmos pubs, mas se calhar encontraram-se no festival de Glastonbury onde se calhar até ouvem (ou talvez não) as mesmas músicas. Mas parece-me um retrato interessante de alguns aspectos da nossa sociedade. Recomendo vivamente a leitura.
Fontes das imagens: BBC e Daily Mail
Fontes das imagens: BBC e Daily Mail




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