A writer is someone who can make a riddle out of an answer.
Jorge Luis Borges não devia gostar muito de respostas mas sem dúvida gostava de nos levar por labirintos à procura delas.
No seu aniversário, deixo um olhar de relance pelo "Livro de Areia", um livro que, como a areia, nos pode sufocar pela sua imensidão e infinitude, como o narrador deste pequeno conto depressa descobre.
"Baixou logo a voz, como se fosse confiar-me um segredo:
- Adquiri-o numa povoação da planície, a trocos de umas rupias e da Bíblia. Quem o tinha não o sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros esse homem viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não lhe podiam picar a sombra sem ficar contaminadas. Disse-me que o nome do livro era o Livro de Areia pois não tinha, como a areia, princípio nem fim.
Pediu-me que procurasse a primeira folha.
Apoiando na capa a mão esquerda, abri-o com o dedo polegar quase encostado ao indicador. Foi completamente inútil: entre a capa e a mão iam-se interpondo sempre várias folhas. Era como se nascessem do livro.
- Agora procure o fim.
Também falhei: com uma voz que não era a minha consegui balbuciar:
- Isto não pode ser.
Sempre em voz baixa, o vendedor de bíblias disse:
- Não pode ser, mas é. É infinito, nem mais nem menos, o número de páginas deste livro. Nenhuma delas é a primeira, nenhuma delas é a última." O Livro de Areia, p.135.
O que acontece a este narrador que acaba de receber um tesouro? O que é o "Livro de Areia"? Borges explica e deixa por explicar no fim do conto. Como disse, Borges não devia gostar de respostas e é por isso que gosto tanto dos seus textos.
A imagem é da Biblioteca do Trinity College (Dublin) e faz algum sentido depois de se ler o conto de Borges...
(Post pré-programado para publicação a 24 de Agosto, aniversário do nascimento de Jorge Luis Borges).
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