quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A angústia (?) do plágio

Quando o comentário que se deseja é a knock-out e o que se obtém é a knock-off, é porque se cruzou perigosamente a linha entre a "criatividade" e a "absorção tão intensa que se entranhou a estética alheia".
Com três projectos em mão, encontro-me naquela fase crítica em que olho para o que faço e o que ontem me parecia novo e diferente, hoje começa a lembrar-me coisas já lidas algures.
Será este um drama comum? De acordo com um artigo de 1 de Agosto, no New York Times, não é tão comum quanto isso. A preocupação em se ser honesto e original está a tornar-se algo do passado, com o acesso fácil à cópia livre na Internet. Embora, paradoxalmente, também seja muito mais fácil descobrir e distinguir-se o original do pastiche.
O artigo é interessante e recomendo: Plagiarism Lines Blur for Students in Digital Age.
Ler estava associado ao folhear, ao suporte físico com uma cor, um formato, uma textura, um local na estante. Mas ler num computador não fornece tantas pistas. As palavras não pertencem a um livro castanho, azul ou verde, com um desenho assim ou assado na capa. São apenas aquelas letras pretas no écrã do computador, iguais de ficheiro para ficheiro, de página web para página web.
Assim, ou se é muito cuidadoso ou se escorrega para aquele terreno perigoso do "não é uma cópia, é só muito parecido com o original." O que, na linha do artigo do NYT, até espelha a crescente desvalorização do esforço, dos direitos de autor e da "vergonha na cara", frequentes nas gerações multimédia (acho que já há mais do que uma) que apresentam, naturalmente, as palavras dos outros como sendo suas.
A velha e bem conhecida imagem de Bernardo de Chartres de que somos anões aos ombros de gigantes foi retocada e adquiriu novas roupagens: podemos agora, claramente, dizer que somos anões preguiçosos com a obra de gigantes ao alcance dos nossos dedos.
O que não é bonito, nem fica bem. (Será que já li isto noutro lugar?)

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