quinta-feira, 22 de julho de 2010

Biografia, biografia, biografia

Até há algumas décadas atrás, a maioria das obras biográficas aspirava a interessar aos seus contemporâneos e aos leitores futuros. Às histórias de reis e rainhas, de santos e mártires, foram sendo acrescentadas a história do explorador épico e do exótico chefe índio, do líder espiritual e do herege, do escritor genial e do génio de temperamento artístico.

Mais recentemente, no entanto, a biografia e a autobiografia têm entrado por terrenos no mínimo estranhos. Se compreendo o interesse que pode ter a história da secretária de Hitler pelo que nos diz sobre o próprio (e não sobre a própria, cujo nome não fica para a História), interrogo-me sobre a vontade de ler sobre a história do treinador de futebol, do actor mediático ou do participante no reality show.

Que todos eles queiram falar sobre si próprios, não tenho dúvidas. A maior parte de nós gosta imenso de falar do seu umbigo e projectar-se para além da sua própria sombra. Basta ver as histórias pessoais que vão sendo narradas, blogadas ou "twitadas" por essa Internet fora. E já nem falo do Facebook! Provavelmente, podia extrair um romance pós-moderno a partir do que lá se encontra, um pouco como no livro de George Perec, A Vida: Modo de Usar! Só que em vez de um edifício, teríamos uma rede de 1000 amigos (e parece-me que Ridley Scott já terá tido essa ideia...)

Mas que haja tempo e paciência para comprar e ler estas historietas, escritas e pensadas para um público imediato antes que se caia no anonimato, deixa-me com cara de pasmo. E a cara de pasmo não me fica nada bem. 

2 comentários:

  1. Curiosa coincidência esta: acabo de ouvir (penso que foi no notíciário da RTP)a constatação de que se o Facebook fosse um país, seria o 3º mais populoso do mundo; que ali se vão construíndo (auto-)biografias bizarras - grande parte das pessoas escreve para si própria e pouco lê do que os outros escrevem; e que naquele lugar,o individual se sobrepõe largamente ao colectivo...

    Abraço.

    P.S. Lamento discordar, mas a cara de pasmo fica-te muito bem! :)))

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  2. Coincidência ou acaso Austeriano? :)

    No seguimento da conversa de ontem, recebi hoje um daqueles convites para ver um "álbum do bebé". No Facebook (!)

    E a cara de pasmo, acho que vou ter de me habituar a ela porque a uso cada vez mais todos os dias. :)

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